|
|
![]() |
|
|
|
||
Diego, ao centro, campeão estadual de 2007
|
Acabei a leitura do livro O JOGO IMORTAL, do norte-americano David Shenk. Embora seja um livro sobre o xadrez sua leitura será bastante proveitosa, mesmo para os não enxadristas, desde que se interessem por coisas como educação, história, cultura e inteligência.
Quem me falou sobre O JOGO IMORTAL foi o escritor Esdras do Nascimento, que é enxadrista e que ganhou um prêmio literário justamente com um romance cujo tema é o jogo de xadrez. O livro em questão tem como título VARIANTE GOTEMBURGO, que é uma das muitas linhas adotadas pelo jogador das pretas na Defesa Siciliana, uma das principais aberturas do jogo.
Shenk, no livro, fala das irmãs Polgar. Qualquer enxadrista sabe quem são elas, mas fiquei sabendo algo que, até a leitura do livro, eu ignorava, ou seja, que os pais delas disseram que fariam dos filhos gênios antes mesmo que eles (no caso, elas) tivessem nascido. Vejam o que diz Shenk:
"Talvez o mais conhecido exemplo do gênio obtido pela instrução venha de Budapest, Hungria. Ali, no final da década de 1960, o psicólogo Laszlo Polgar, embarcou em um experimento incomum, cujo objetivo era provar que qualquer bebê saudável poderia ser educado para tornar-se um gênio: ele declarou publicamente que iria fazer isso com os próprios filhos, que nem tinham nascido ainda. Ele e sua mulher elaboraram um plano para dar instrução aos filhos em casa e focar intensamente algumas disciplinas favoritas, entre as quais o xadrez. Desde tenra idade, as três filhas de Polgar, Zsuzsa, Zsófia e Judit, estudaram em média oito a dez horas de xadrez por dia, num total de talvez cerca de 20 mil horas, dos oito aos 18 anos. Incrivelmente, todas viraram "gênios" do xadrez. Em 1991, aos 21 anos, Zsuzsa (que depois ocidentalizou o nome para Susan) tornou-se a primeira mulher da história alcançar o título de Grande Mestre através de torneios de qualificação. A segunda filha, Zsófia, também se tornou jogadora de classe internacional, Judit, a mais nova, aos 15 anos foi a mais jovem Grande Mestre da história (recorde anteriormente obtido por Bobby Fischer) considerada forte candidata a tornar-se possivelmente campeã mundial de xadrez."
Achei digna de atenção a observação de que o sucesso é, em geral, resultado muito mais de trabalho, prática, estudo, do que talento. O livro cita o depoimento de um professor de psicologia do University College, David R. Shanks, segundo o qual "as evidências da superioridade da contribuição do talento sobre a prática se mostraram extremamente ilusórias".
A esse respeito, pode-se ler, à página 137 do livro:
"Shanks cita uma série de estudos, todos apontando na mesma direção. Em um deles, os observadores realizaram pesquisa anônimas para separar estudantes de música clássica em três diferentes grupos, de acordo com o seu nível de capacidade: (1) superior, (2) muito proficiente e (3) adequado. Em seguida, perguntaram aos estudantes quanto eles já haviam praticado no passado, e quanto praticavam atualmente. As respostas foram incrivelmente coerentes, demonstrando uma elevada correlação com o nível de capacidade. Os melhores estudantes haviam se exercitado cumulativamente, cada um, por 10 mil horas, aproximadamente, em toda a vida. O grupo logo a seguir se exercitara por cerca de 8 mil horas; e o grupo menos proficiente ficou em torno de 5 mil horas de exercício cumulativo. Números semelhantes surgiram em estudos sobre mestres enxadristas, atletas, escritores e cientistas."
Esses estudos, na verdade, estão confirmando a veracidade de uma frase atribuída ao famoso cientista, Albert Einstein, segundo a qual "o gênio é resultado de 90 por cento de transpiração e de 10 por cento de inspiração".
O livro, que tem 311 páginas, é da Jorge Zahar Editores. Muito mais eu poderia dizer sobre ele, que aborda diversos aspectos, históricos, literários, psicológicos e tecnológicos, sobre o xadrez, mas fico por aqui, para não tirar o prazer dos que se dispuserem a empreender a sua leitura. Mas, para que vocês tenham uma idéia da amplitude dos temas abordados, adianto o subtítulo:
"O que o xadrez nos revela sobre a guerra, a arte, a ciência e o cérebro humano".
Espero com isso ter aguçado, suficientemente, a curiosidade dos que ainda não tiveram a oportunidade de ler o interessante livro do David Shenk, para que se disponham a fazê-lo.
Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 2008 |
|
O xadrez, um jogo delicioso, por Deus! |
I Antes de tudo quero esclarecer que quando falo em comemorar refiro-me ao significado etimológico da palavra, que é lembrar junto, e não no sentido único que muitos lhe atribuem, erroneamente, de festejar. Naturalmente que se pode comemorar festejando, mas nem sempre comemorar é festejar.Desse modo, e o exemplo é oportuno, 2008 será lembrado por todos nós (comemorado) como o ano em que morreu Bobby Fischer, considerado, e com justa razão, um dos maiores jogadores de xadrez de todos os tempos. A lamentável morte do Fischer é evento recente, mas 2008 nos remete a alguns centenários, como o do nascimento de João Guimarães Rosa e o da morte do Joaquim Maria Machado de Assis. E o que esses dois notáveis escritores tem a ver com o xadrez? Bom, Machado de Assis era, declaradamente, enxadrista. E não apenas jogava, fez pelo menos um problema de mate em dois e foi secretário do primeiro clube de xadrez fundado no Rio de Janeiro. O Guimarães Rosa enxadrista não é coisa tão evidente. Ficou famoso por sua cultura, erudição e conhecimento de línguas estrangeiras. Médico, confessou certa vez a sua falta de vocação para o exercício da medicina e, em carta a um amigo, deixou isso claro: "Não nasci para isso, penso. Só posso agir no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez. Nunca pude, por exemplo, com o bilhar ou o futebol." Existem registros de partidas de Machado de Assis, mas não conheço nenhuma do Guimarães Rosa. Pode ser que o autor de Sagarana tivesse usado a expressão "sou um jogador de xadrez" no sentido figurado. De qualquer forma, há alguma relação do autor com o jogo. Um dos personagens de um dos contos de Sagarana é enxadrista. Mas admito a hipótese dele não ter sido, como foi Machado, enxadrista praticante. De fato, pode-se gostar de xadrez mesmo que não se o pratique. Vera Pacheco Jordão escreveu, no "O Jornal" de 22 de junho de 1947, um artigo sobre o poeta Raul Bopp, que tinha elaborado um plano de dez itens para a educação do filho, Sérgio Alfredo, cujo preâmbulo dizia o seguinte: "No mundo incerto em que vivemos, é melhor estabelecer-se um novo critério em matéria de ensino, pondo-se de parte (em segundo plano) matérias de caráter meramente ornamental. É muito bonito se saber latim, a história dos reis assírios ou teoremas algébricos. Mas eu tenho, de experiência própria, que essas coisas não pagam dividendos. Falta-lhes aplicabilidade na vida prática". Eu tenho cá as minhas dúvidas de que saber latim e teoremas algébricos não paguem dividendos mas não é propósito meu entrar nessa polêmica. O que eu quero é mostrar o que dizia o poeta sobre o valor do xadrez na educação e porque ele queria que o filho aprendesse o jogo. O item 10 da lista dizia o seguinte: "Xadrez: para uma disciplina do raciocínio. Arte de refletir para acertar. Serve como uma educação do controle." Diante de tal declaração eu pensei que o autor fosse enxadrista praticante. Ledo engano meu. O autor de Cobra Norato não jogava xadrez, e quem ensinou o jogo aos seus filhos (que também não são praticantes) foi o irmão.II Se alguma coisa pode servir de pretexto para que se faça alguma reflexão importante, então a oportunidade não deve ser perdida. Nesse sentido, o xadrez pode comemorar os 50 anos da conquista da Copa do Mundo de futebol se perguntando porque somos tão bons nesse jogo mas nem tanto no xadrez. Falta de tradição no xadrez, dirão alguns. Eu tenho sérias dúvidas de que este argumento seja válido. O Brasil tem tanta tradição no xadrez quanto teve, no passado, no futebol. Como o xadrez, o futebol foi jogado na China, há muito séculos. Não o futebol de hoje mas um jogo parecido. E isso há 3000 anos antes de Cristo. Depois de passar pelo Japão, pela Grécia e outros países, chegou à Inglaterra, por volta do século XVII e lá, aos poucos, foi se transformando no jogo que conhecemos e jogamos hoje. O futebol foi trazido para o Brasil por Charles Miller, que nasceu no bairro paulistano do Brás mas que foi à Inglaterra estudar trazendo de lá uma bola de futebol e as regras do jogo. O futebol era, naquela época, coisa de branco. O primeiro jogo realizado no Brasil (o mais provável é que outros jogos tenham sido jogados antes, mas este é o que está registrado nos anais do futebol), em 15 de abril de 1895, reunia funcionários de empresas inglesas que atuavam em São Paulo. Todos de origem inglesa. Na verdade, era vedada a participação de negros em times de futebol. No entanto, não foi com equipes de brancos que o Brasil chegou a ser uma potência no futebol. O primeiro craque brasileiro, Arthur Friedenreich, era filho de um alemão com uma negra. Diga-se, de passagem, que os clubes que só tinham jogadores brancos, que faziam parte do seu quadro social, começaram a perder campeonatos em que enfrentavam equipes mistas. Dessa circunstância veio a idéia da profissionalização, pois nesse caso podia-se ter um jogador negro como contratado do clube (empregado) sem tê-lo como sócio. Evidentemente que hoje temos uma situação bastante distinta (pero no mucho). Nenhum presidente faria, como fez Epitácio Pessoa em 1921, a recomendação de que não se incluísse negros na seleção de futebol que representou o Brasil numa disputa realizada em Buenos Aires, para que não se prejudicasse a imagem do Brasil no exterior. Então, se o futebol era "coisa de elite" e o pessoal do "andar de baixo" (royalties para o Elio Gaspari) fez dele um espaço da sua afirmação, por que o mesmo não poderia acontecer com o xadrez? O futebol também não tinha, até que os ingleses o trouxessem para cá, nenhuma tradição entre nós mas mesmo assim fizemos dele o nosso esporte nacional e fomos cinco vezes campeões mundiais. Então, eu não vou muito por esse lado, de tradição ou coisa que o valha. Acho que podemos nos afirmar no xadrez tão bem quanto em qualquer outra coisa, independentemente de fatores étnicos, raciais, etc. Não acredito na existência de raças superiores. O que acredito é em trabalho, dedicação, estudo. Falta também massa crítica. Tem que ter muita gente jogando e tem que haver intercâmbio. Como isso vai acontecer eu não sei mas podemos pensar juntos sobre essa questão.III Temos em 2008 o centenário de nascimento do engenheiro Tomas Pompeu Acioli Borges, campeão brasileiro em 1935. E temos também os vinte anos da morte do campeão brasileiro de 1947, Márcio Elísio de Freitas. Estão ai duas sugestões para torneios em homenagem a personagens ilustres do jogo. Bom, 2008 está começando. Se eu me esqueci de citar algum nome importante (é quase certo que o tenha feito) do xadrez me avisem.IV O marechal Cândido Mariano da Silva Rondon foi um dos maiores brasileiros do século passado. Homem de vida exemplar, de uma estirpe moral rara nos dias de hoje, Rondon foi um desbravador, que não só concretizou o sonho de juventude de cobrir de linhas telegráficas o território de seu estado natal (Mato Grosso), como o ligou também depois ao resto do Brasil. Promoveu a integração do imenso território brasileiro, até então desconhecido pelo seu povo. Foi um defensor do nosso índio. A sua atuação nesse campo teve como resultado a criação do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Rondon morreu em 19 de janeiro de 1958, ou seja, há 50 anos. Um grande brasileiro cuja morte poderia ser lembrada com um grande torneio. Fica a sugestão. Em 1948 surgiram denúncias de irregularidades no SPI, entre elas o desvio das verbas destinadas à assistência aos índios. Foi então criada uma comissão para apurar os fatos. Faço o registro porque um dos membros da comissão foi o enxadrista cearense Adail Catunda Gondim, já falecido, e de quem os enxadristas veteranos certamente se lembram. Adail jogou por diversas vezes o campeonato brasileiro de xadrez, inicialmente pelo seu estado natal e, posteriormente, pelo Distrito Federal (quando o Rio ainda era a capital da república) e depois pelo Rio de Janeiro, onde passou a residir.
Adail Gondim (para quem não conheceu, é o segundo, da direita para a esquerda) no Alto Xingu, em 1948. V Finalmente, temos os 25 anos da morte do Garrincha, o gênio das pernas tortas e dos dribles desconcertantes. Aliás, tem uma história envolvendo o Garrincha, contada pelo João Saldanha, que eu acho ótima: Um diretor do Botafogo ficou contra um aumento de salário, proposto para o Garrincha, alegando o seguinte: "Eu sou engenheiro e não ganho isso que vocês querem pagar a ele". Ao que o Saldanha retrucou: "O dia em que você for o Garrincha dos engenheiros poderá até ganhar mais do que isso". O engenheiro ficou uma fera e quase saiu briga.Mas o que o Garrincha tem a ver com o xadrez? É simples: eu acho que ele merece homenagem até em coluna de xadrez e queria encerrar fazendo uma pergunta: quem o leitor acha que poderia receber o título de "O Garrincha do Xadrez"? |
|